10 dias na pista. Que experiência! (Ou, Uruguapos II, o Prólogo)


Eu nunca havia feito uma viagem longa de moto. O trajeto mais longo teve cerca de 300km e uma noite em MG. Quando me convidaram para uma viagem de 10 dias, 4 estados brasileiros, três cidades de outro país, fiquei um pouco receoso, mas topei o desafio.

Quanto mais se aproximava a data, mais ansioso ficava e, a partir de 31/12, parecia que ia chegar o Carnaval e a Páscoa, jamais dia 5 de janeiro. Mas chegou.

Numa madrugada quente e com alguma garoa, partimos em 3 amigos do ABC e encontramos outros 3 amigos na Capital. A partida foi acompanhada doa aumento da chuva (que foi algo constante na viagem (ainda que em dias alternados). A nós, juntaram-se mais 2 amigos, um em Curitiba/PR, e outro em Porto Alegre/RS.

O roteiro foi: São Paulo a Florianópolis, Florianópolis a Porto Alegre, com uma breve parada para o almoço (um legítimo churrasco gaúcho em Capão Novo/RS), Porto Alegre a Arroyo Chuy, de lá a Montevideo/URU,  e, em seguida Colônia Del Sacramento/URU e Rivera/URU. De Rivera, retornamos a Erechim/RS, quando nossos amigos (gaúcho e paranaense) tomaram seus rumos direto a Porto Alegre e Londrina. Nós 6 fomos a Curitiba/PR e dali para São Paulo.

Em Montevideo, encontramos nosso amigo espanhol, Don Iñigo, que realizava seu tour pelo sul, até o fim do mundo (Patagônia), rodando cerca de 1.000Kms por dia. Baita encontro, baita festa.

Nós rodamos 4.800Km (um pouco mais, talvez), em 10 dias.

Ao longo do tempo vou postar alguns textos falando desse período e de tudo que eu vi. Por hora, basta dizer que foi “fodástico” e que, nesses 10 dias, laços foram estreitados, respeito foi construído, e pensamentos surgiram aos milhares.

Amigos, na estreita interpretação da palavra, foram revelados.

Que venham as próximas viagens!

Amigos, o que são?


Tem gente que passa a vida tentando entender e classificar. Tem gente que passa a vida sem saber. Esse negócio de amigo é complicado....

Amigo é aquele cara totalmente diferente de você, com quem você faz amizade no primeiro dia do Colegial e, depois de 26 anos, ele continua seu amigo. Ou é aquele cara que você conhece na porta da sua entidade de classe, num evento qualquer, e que, depois de um tempão, continua lá do seu lado.

Tem os amigos da faculdade, um grupo de nove entre quarenta, que se põem um título terrorista, mas nenhum é capaz de explodir uma bombinha de 50. Tem os malucos da organização discreta, que te acolhem como se você já fosse da família desde sempre.

Confidentes. Cúmplices.

Tem aqueles amigos que você conhece do nada, que a afinidade surge num sábado de manhã, num passeio de moto. Com eles, você contempla inaugurar um “Moto Grupo”, que é um aglomerado de gente que quer andar junto, que se respeita, mas que não quer causar confusão nem brigar na rua.

Tão confidentes e cúmplices quanto os outros. Amigos.

E, neste “aglomerado”, tem de tudo: o "Curitiba" que fala pouco, o piloto que tá sempre voando, o mineiro que sempre pensa antes de falar, o gaúcho que é alvo das piadas, os tiozinhos mais ponderados, entre uma gama de todo o tipo de gente. Gente igual, mas diferente.

Gente que ora está num rolê, ora não está. Gente que briga, que sai, que volta, e você não entendeu nem porque foi, porquê o cara fala outra  língua, meio misturado. Gente que é como você, cheia de acertos e erros.

Aí, você olha e está fazendo 2 anos (730 dias ou 17.520 horas) que vocês fundaram uma organização desorganizada, e que, noves fora, já atraiu quase um terço do quadro inicial. E essa atração se dá naturalmente. Gente sempre tão parecida...

Hoje, ou melhor, daqui a pouco, já que escrevo antes de 13.12, os Burocratas completam dois anos. Aqui tem de tudo: grosso, fino, magro, gordo, homem, mulher, gaúcho, paranaense, paulista, cabeludo, careca, branco, preto, verde, azul, cor de rosa.

Temos uma família. Meio disfuncional, mas uma família. Aí a gente se pergunta: Amigos, o que são? E eu peço licença pra tentar responder: são todas essas pessoas que a gente traz em volta ao longo da vida.

Vida longa aos Burocratas! Vida longa às amizades sinceras!


Uma noite por aí.


Em primeiro lugar, meus agradecimentos pelo convite para compor o ilustre quadro de colaboradores, e minhas desculpas pelas mal traçadas linhas que serão lidas daqui em diante.

Quinta-feira, 6/12/2018. Uma saída previamente marcada de São Paulo, que já rendeu um baita trajeto em trânsito pesado. Depois de dias com tempo bom, um por do sol acinzentado, querendo diminuir nosso ímpeto motociclístico.

Bobagem!

São Paulo a Guararema, estrada um pouco cheia, vento um pouco frio, horizonte cinza. Nada disso arrefeceu o ânimo. Depois de muita conversa no comunicador (quase 100 km), chegamos a uma cidadezinha agradável, pequena e com um pequeno festival de luzes e fogos de artifício.

Bom papo e piadas numa pizzaria agradável e barata, uma voltinha pelas praças e chega a hora do retorno.

E que retorno: talvez o melhor passeio de moto que eu já tenha feito. Pouco frio, sem incômodo na pista de boa qualidade e, de novo, muito assunto no comunicador.  

S E N S A C I O N A L !!!

Todo mundo devia fazer isso, vez por outra, com amigos como eu tenho.

Que venham os próximos. Serão muitos!



Às vezes decepciona




Hoje, nesse mundo de redes sociais e comunicação instantânea, é comum recebermos mensagens positivas de vários assuntos, dentre eles mensagens que pregam a união entre motociclistas.

Estas mensagens costumam dizer que na estrada somos todos iguais, não há distinção entre rico ou pobre, bandido ou mocinho. Este seria o motivo principal de motociclistas usarem tanto a caveira como símbolo, seja com o argumento de que por trás de nossas vestes somos todos ossos e carnes, seja quando alguns dizem que quando morremos todos temos o mesmo “fim”.

Vendo mensagens como esta, é de se esperar que a classe fosse realmente unida mas, infelizmente, a realidade tem se mostrado diferente.

Dentro do mundo dos motociclistas há aqueles que andam sem associação, os há os motogrupos que possuem regras mais leves e, finalmente, os motoclubes que são irmandades entre motociclistas, uma família.

É triste ver quando uma “família” resolve encrencar com outra por motivos mais do que fúteis ou vazios (discussão psicológica isso). Inventam-se rixa na base da ignorância ou, até mesmo, na base da babaquice, como disputas por territórios, disputas por status ou apenas para inflar o ego.

É mais triste ainda ver motoclubes tendo de se extinguir pelo simples motivo da preservação da integridade física de seus integrantes, motoclubes pequenos e de boa índole sendo canibalizados por outros maiores e seus afiliados, que deveriam dar o exemplo.

Quando eu conto essas histórias para pessoas que não são do meio, geralmente escuto:

- Você está dizendo a verdade?
- Existe isso?
- Por que existem essas rixas?
- Essas pessoas não têm coisa mais importante na vida? 

É impossível responder quando as respostas te fazem soar como vazio, fútil ou idiota mesmo. É difícil explicar e convencer as pessoas ao seu redor que você não se envolve nessas celeumas, já que poucos dias atrás estávamos todos pregando união entre todos os que andam de moto.

Estreando o odômetro.



Esses dias fez um ano que adicionei a categoria A na minha CNH. De todas as coisas boas que aconteceram comigo em 2018, e não foram tantas, ter comprado uma moto, sem dúvida, está entre as melhores. Comecei bem, retomando uma amizade importante, de muitos anos, mas que havia sido separada pelo tempo e pela distância da vida maluca de SP. Distância que hoje é muito menor com a motoca, em diversos sentidos.


Acho que leva um certo tempo entre comprar a moto e se tornar um motociclista. Você começa a conhecer pessoas novas, conversar muito sobre o assunto, até que resolve pegar a estrada com algumas delas, visitar lugares diferentes e até pitorescos. Qualquer motivo é um pretexto pra pegar a estrada.

Antes de comprar a moto, por conta do meu trabalho, tive a oportunidade de fazer um curso de pilotagem urbana e de testar mais de 20 modelos diferentes, o que me ajudou bastante a ter uma opinião formada entre o que eu gostava e o que cabia no meu bolso. Infelizmente, por questões de segurança e praticidade, não dá pra ter qualquer modelo hoje em dia. Optei por uma custom, ou melhor, uma cruiser que me brilhou os olhos. Foi uma compra racional, mas apaixonante!

Descobri que cada motociclista se relaciona de maneira diferente com a moto que, na maioria das vezes, tem até nome. Claudinha, Nigella, Cicciolina... ops, digo, Yasmin! Tem de tudo, cada uma com uma história diferente. A minha se chama Melinda, uma oriental malvadona e porradeira, de uniforme todo preto, talvez você já a conheça. Começa então a surgir a uma relação única e muito particular com as duas rodas.


Vez ou outra a gente se identifica com alguns desses figuras, com outros, nem tanto. Tem do moleque old school ao tio high tech e até o cachorro loko com guidão seca sovaco. Certeza que você já pensou em quem poderiam ser.

No fim do dia, o importante mesmo é rodar, esquentar o asfalto, é quando todo mundo se complementa em torno de uma coisa em comum. Afinal, a gente só conhece quem roda com a gente, não é?

A gente se vê.

E bora pegar a estrada!

Sobre tragédias e superações




     Hoje foi um dia especial.

     Hoje saí com alguns amigos pra comprar óleo para a Geovanna, mas não especial por isso.

     Hoje saí com amigos para comprar capacete e jaqueta para um deles. Um deles que já estava a alguns vários meses sem andar direito e muito menos de moto.

     Esse caríssimo passou por uma provação daquelas... que não sei se eu conseguiria passar, muito menos com o empenho e humor que presenciei, foram dias difíceis, provavelmente jamais esquecíveis, que marcaram a todos nós e todos que estavam em torno.
     
     Vimos o empenho, a preocupação e a força da família, vimos as aflições do lento restabelecimento, vimos os laços serem firmados, vimos a dedicação da companheira, as dificuldades do dia a dia e a superação nas seções de fisioterapia.

     Hoje foi o capacete, a jaqueta, em seguida será a moto e em breve dividiremos a estrada.

     Não vejo a hora.

Bike Wash and Wet T-Shirt


Sábado podia ser dia de rolê, mas foi agraciado com um dia que eu e meus amigos chamamos de Bike Wash. Neste dia reunimos na garagem do escritório para dar um trato nas motos. A previsão era de chuva, mas quem se importa? 



Chegamos e colocamos as meninas para esfriar enquanto tomávamos café, o tempo indicava mesmo que vinha uma chuva por aí, mas quem se importa?


Realizamos a troca do óleo de motor e filtro de duas motos, uma Fatboy do Tiago, que não tem nome, coitada, e também já era hora da Yasmin receber óleo novo, a menina tá rodando.

Abre o Dreno, limpa o bujão, checa o o-ring, abre a entrada de óleo, deixa drenar, saca o filtro de óleo, meleca para todo o lugar. Pelo menos desta vez fui razoavelmente inteligente para colocar um plástico debaixo da moto e não sujar o chão.


Óleo e filtro novos colocados, nível verificado, partida feita, luz de óleo apagada. Sucesso. Agora era só guardar as ferramentas, separar o lixo e passar para a próxima etapa. Banho. Mas vinha chuva aí, mas quem se importa.

Banho dado, um pouco de cera, detalhes com o mágico WD-40. As motos ficaram tinindo, prontas para um rolê. Fechamos o escritório, subimos nas motos e fomos até algum lugar para molhar a garganta. Como não nos importávamos, tomamos chuva.  Mais um sábado feliz.

Sobre Amigos e amigos




Gosto de viajar sozinho de moto, mas dividir com amigos a mesma busca é especial.

Os dias na estrada são fantásticos, saber que o destino está longe é revigorante, que teremos que dividi-lo em vários dias, várias estradas, vários sabores, tempos, climas e paisagens. Mas tenho algo para lhes contar, encarar a estrada sob esses aspectos é muito bom, encontrar um amigo que comunga das mesmas visões e abraça a viagem com o mesmo entusiasmo que o seu... é melhor ainda.

As amizades forjadas sob o sol e acima do asfalto são verdadeiras e duradouras, tenho amigos de longa data e alta estima na maioria seladas com fuligem e poeira. Como diziam muitos em tempos remotos: “quem tem amigos tem tudo”. Hoje jogo ao vento a mesma frase, quem tem amigos tem tudo.

Encontrar um parceiro para viagens de moto é uma tarefa difícil, as vezes árdua. É um desafio encontrar a mesma disposição sua em outrem, as mesmas necessidades, os mesmos desejos e acima de tudo paciência, pois sempre aparecem as dificuldades e é preciso lidar com elas, mesmo que se o problema de forma imediata não seja seu... ele é, se o problema é com seu parceiro então o problema também é seu e vocês terão que lidar com isso juntos. Aí é que mora a maior das dificuldades, pois muitos não se importam ou não encaram dessa forma.

Sou um afortunado por ter vários amigos com quem tenho o prazer e o privilégio de dividir o caminho.

Essa é parte da essência. 


Ano que vem eu faço...


Jorginho era um cara comum, acordava cedo para ir trabalhar, pagava seus impostos e provia para sua família.

O orçamento sempre apertado não garantia grandes luxos como grandes viagens ou restaurantes caros. Porém garantia churrasquinho, o cinema com os filhos, o passeio de carro no final de semana.

Jorginho levantou domingo cedo, organizou a mala térmica e os lanches, acordou e colocou esposa e crianças no carro. Era hora de pegara rodovia e encarar o  congestionamento até o litoral.

No caminho lento e cansativo pela rodovia, Jorge olhava a paisagem, senti ao vento no rosto, o calor do sol. Olhava os motociclistas passando pelo congestionamento como se ele lá não estivesse. Pensou: Como seria bom se eu tivesse uma moto. Será que posso comprar uma moto? Quem sabe ano que vem.

Os anos foram passando e o projeto duas rodas sempre sendo postergado, ano a ano, dia a dia Jorge se via cada vez mais angustiado, os filhos mais velhos já ensaiavam suas vidas independentes, os passeios de final de semana estavam ficando mais escassos.

Sem perceber, dez anos já haviam se passado. Jorge viu que sua vida poderia ter sido melhor, apesar de não estar arrependido, se sentia orgulhoso de suas conquistas.  Será que não era hora de retomar o projeto duas rodas?

Senhor Jorge acordou cedo, desta vez com um sorriso no rosto, ele já sabia onde ia. Deu um beijo na esposa e saiu, cantarolando....  Tá ficando louco, pensaram os vizinhos.

Já era no meio da tarde quando a campainha toca. Maria, a esposa, abre a porta para receber do policial a notícia de que o Sr. Jorge não voltaria para casa, fora vítima de um assalto. O Sr. estava feliz, com o vidro do carro aberto, cantarolando não percebeu a chegada do assaltante. Jorge morreu sozinho.

--//--

“Cansado de ficar deitado com o sol lá fora
Ficar em casa vendo a chuva
Você é jovem e a vida é longa
E há tempo para matar hoje
E então um dia, você descobre
que dez anos ficaram para trás
Ninguém te disse quando correr
Você perdeu a largada
E você corre e corre para alcançar o sol, mas ele está se pondo
Dando a volta, até surgir novamente atrás de você
O sol é o mesmo, de forma relativa, mas você está mais velho
Com menos fôlego e um dia mais próximo da morte”


--//--
esta é uma história de ficção...

Aprendendo errando


Minha primeira viagem de moto foi em 2016. Fazia poucos meses que eu havia comprado a Amber e poucos meses também de CNH tipo A. Mas aquele era o intuito da moto, viajar. Então criei coragem e planejei uma pequena viagem de 500 km em dois dias.


A ideia era sair de SP e ir até Ribeirão Preto. Lá eu encontraria com meu pai e meu irmão, que sairiam de Uberaba. No dia seguinte seguiríamos até Uberaba, onde passaríamos alguns dias para então percorrer os 500 km de volta para São Paulo.

Tudo planejado, roupas, malas, moto, reservas, a estrada que eu conhecia bem. Ficava faltando só controlar a ansiedade.

Acho que era uma sexta-feira. Acordei não tão cedo e saí de casa, tomei café na rua e logo estava na estrada, tempo bom. Tudo corria bem até por volta do km 120 da bandeirantes onde o céu aberto foi dando lugar a nuvens escuras. A chuva estava ali logo à frente.

Eu tinha uma decisão a tomar, parar para colocar a capa ou rodar por mais 5 km até o posto Graal 125 correndo o risco de pegar um pouco de chuva. Eu estava de calça Jeans e jaqueta verão, mesmo assim resolvi seguir correndo o risco de pegar a chuva.
Erro número 1: peguei a chuva sem colocar a capa.

Em menos de 2 km eu já estava todo ensopado, parei no posto e comecei o strip tease para torcer a camiseta, as meias e a calça. Eu tinha de tentar algo. Depois fiquei parado, não coloquei a capa e fiquei esperando a chuva parar ou diminuir para seguir viagem.
Erro número 2: devia ter colocado a capa e seguido viagem.

Uma hora e meia depois, nada da chuva diminuir, então este esperto escriba resolveu fazer o que já devia ter feito, colocado a capa e seguido viagem. A moto é pesada, pneus novos, dava para ir com segurança. Bora, peguei estrada.

A minha jaqueta é uma daquelas com três camadas, a Jaqueta em si é bastante fresca e deixa passar muito vento, uma capa de chuva e uma capa de frio.  O bonitão resolveu colocar só a capa de chuva.
Erro número 3.

Vento, água e a temperatura ambiente me fizeram passar pelo maior sensação de frio da minha vida. Eu já estava molhado, a capa da jaqueta não funcionava tão bem como uma capa estilo motoboy.
Erro número 4: eu devia ter usado a capa motoboy, que estava na minha mala.

O frio era tanto que eu ficava esperando ver caminhões na estrada, pois ao ultrapassá-los eu dava uma enroladinha ali do lado dele, perto da saída do motor (escapamento) onde era quentinho. Eu me esquentava por dois ou 3 segundos e terminava a ultrapassagem.
Erro número 5: ficar do lado de um caminhão por mais tempo que o necessário.
Erro número 6: fazer isso com pouca visibilidade.

Voltando ao frio, lembro que parei em um posto de combustível e eu não conseguia digitar no whatsapp (para informar a família onde eu estava) por que minhas mãos tremiam muito.  Não dava para acertar a tecla. Mandar áudio também ia ser complicado, já que eu batia os dentes.  Eu devia ter trocado de roupa, nem que isso significasse comprar qualquer trapo a venda nas paradas da rodovia.
Erro número 7: Insistir em viajar molhado.

O tempo passou e eu sofri calado... Não, na verdade ia cantando e falando dentro do capacete, tentando me distrair do frio, concentrar na estrada.


Faltando aproximadamente 60 quilômetros para Ribeirão Preto a chuva deu uma trégua e um tímido sol começou a querer aparecer. Foi o que me deu forças para terminar a viagem.

Lembro com muita clareza que quando cheguei, meu pai e irmão me esperavam na porta da garagem do hotel, eles já sabiam que eu estava todo molhado, me ajudaram a estacionar e descarregar a moto. Subi tremendo e correndo para o quarto e entrei de roupa e tudo debaixo do chuveiro quente.

Assim foi a minha primeira viagem de moto. Em um só dia cometi sete erros que todo motociclista deve evitar.

Minha trilha sonora aleatória


Tenho um intercomunicador no meu capacete, este intercom conecta no celular via bluetooth e eu o uso também para ouvir música, geralmente quando estou sozinho. Ouço todo tipo de música, de clássica a death metal, tudo organizadinho em pastas. Mas, preguiçoso que sou, deixo sempre meu google play tocando todas as músicas de forma aleatória.

Sábado, frio e com previsão de chuva, mesmo assim era dia de rolê.

Ironicamente meu passeio de sábado começou as 09:30 ao som de Calamity Song.  Ironicamente por que hoje (segunda-feira) quando escrevo este texto, fico sabendo nas notícias que o senador John McCain falecera, McCain era citado nessa música como the Panamenian child.



Subi a Rua Santa Cruz, sem saber muito que caminho faria resolvi entrar na Domingo de Morais sentido av. Paulista. No meu capacete agora tocava Madeleine Peyroux, dizendo para que eu não espere muito. Ironia novamente, pois a av. estava bem congestionada.



Algum tempo depois já estava entrando na av. Paulista. Gosto muito de passar de moto por essa avenida. O asfalto é bom, é limpa e organizada. Nem parece que estamos no Brasil.
Madeleine deu lugar ao bebê rei cantando the thrill is gone, mas eu não estava afim e cliquei para a próxima música. Era hora de pilotar que nem um motoboy ao som de Ozzy e seu Crazy Train. Essa foi comigo até o final da Dr. Arnaldo e começo da Heitor penteado. 



Não pensei em muita coisa nessa primeira parte do rolê, nem vi Crazy Train se tornar Vermilion pt2. Quando cheguei à casa da minha tia, onde faria uma visita para a minha avó que cá está.



Visita Feita, café tomado, encomendas pegas e colocadas na bolsa da moto era hora de seguir. Resolvi não pegar rodovias, o tempo estava instável, e  eu estava com vontade ver  a cidade.

Saí do Alto da Lapa pela Prof. Fonseca Rodrigues sentido praça pan-americana. Agora a minha mente estava a mil, comecei a pensar nos locais que eu havia morado desde que mudei para SP, um mix de melancolia e um pouco de indulgência pessoal. Também, ouvindo On an Island, não tinha como.



Não sei se era onde minha mente estava ou se era a música, eu entrei na marginal pinheiros ouvindo Savin’ me do Nickelback (não julguem), pensando em algumas coisas que vêm me atormentando recentemente, não segurei e acabei com os olhos mareados.



Era hora de achar uma música mais alegrinha enquanto seguia até o Pq. Burle Marx. Achei Miles Davis na minha playlist aleatória, estava legal, vamos em frente.



Retornei pela Marginal Pinheiros até a av. dos Bandeirantes. Não lembro quais músicas tocaram nesta hora, estatisticamente deve ter tocado alguma do Rush. Cheguei em casa ao som de See Emily Play.



Em resumo, pensei um monte de coisas, levantei dúvidas, não achei respostas, cantei, rodei, me diverti. A terapia sobre rodas havia funcionado, de novo, neste sábado..

De SP a Foz, a IDA.

Foi de última hora que resolvi encarar uma viagem do grupo de 2200 km entre São Paulo e Foz do Iguaçu. Era no feriado de 9 de Julho, Revo...